David Ben Gurion

 

Nascido em 1886 na cidade polonesa de Plonsk, sob o regime czarista, David Gryn (como então se chamava) resolveu emigrar para a Palestina, então parte do Império Otomano, quando tinha apenas dezenove anos. Em 1906 já se havia fixado na Galiléia, lançando raízes numa terra que jamais abandonaria. Em 1907 começou a fazer política, participando da formação do primeiro partido judeu, o Paolé Tsion de Eretz-Israel. Nos anos seguintes, depois de estudar direito na Universidade de Constantinopla, sofreu com a perseguição anti-sionista do governador turco da Palestina, foi expulso para o Egito, esteve nos Estados Unidos, participou ativamente da formação da Agência Judaica, lutou ao lado dos britânicos na Segunda Guerra Mundial e participou da luta clandestina contra os ingleses, que resultaria finalmente na proclamação do Estado de Israel, a 14 de maio de 1948.

 

ENTREVISTA DE DAVID BEN GURION PARA A REVISTA VEJA EM MAIO DE 1973.

 

Entrevista: BEN GURION
Israel ainda não nasceu

O patriarca da independência israelense, David Ben
Gurion, fala sobre o país que fundou 25 anos atrás

Michel Salomon

Numa das tribunas de honra do grande desfile do 25º aniversário de Israel, um ancião de porte ereto, com uma auréola de cabelos brancos esvoaçantes, destacava-se das personalidades presentes. Era David Ben Gurion, de 87 anos, fundador do Estado judeu, o homem que há 25 anos proclamou, sob condições as mais diversas, o renascimento da soberania judaica. Ele próprio redigiu a Constituição do novo país, foi o primeiro a ocupar a chefia do governo e permaneceu no cargo durante nada menos do que quinze anos, dos 25 de existência do país.

Nascido em 1886 na cidade polonesa de Plonsk, sob o regime czarista, David Gryn (como então se chamava) resolveu emigrar para a Palestina, então parte do Império Otomano, quando tinha apenas dezenove anos. Em 1906 já se havia fixado na Galiléia, lançando raízes numa terra que jamais abandonaria. Em 1907 começou a fazer política, participando da formação do primeiro partido judeu, o Paolé Tsion de Eretz-Israel. Nos anos seguintes, depois de estudar direito na Universidade de Constantinopla, sofreu com a perseguição anti-sionista do governador turco da Palestina, foi expulso para o Egito, esteve nos Estados Unidos, participou ativamente da formação da Agência Judaica, lutou ao lado dos britânicos na Segunda Guerra Mundial e participou da luta clandestina contra os ingleses, que resultaria finalmente na proclamação do Estado de Israel, a 14 de maio de 1948.

Em 1963, Ben Gurion - desiludido com uma série de revezes e desentendimentos políticos - passou a chefia do governo israelense para Levi Eshkol. Desde então vem levando vida reclusa num kibutz do deserto de Negev. Seu recolhimento acentuou-se a partir de 1970, quando encerrou definitivamente sua carreira no Knesset, o parlamento israelense. Tem dedicado os últimos anos à redação de diversos livros de memórias e, como patriarca da nação israelense, é consultado e ouvido com respeito pelos atuais dirigentes do país.

Ben Gurion considera realizados os planos que traçou para a nação fundada 25 anos atrás? Nessa entrevista concedida na semana passada ao correspondente de VEJA em Jerusalém, o velho líder faz um balanço do passado de Israel e dá seus pontos de vista sobre o futuro do país.

VEJA Israel em 1973 é o pais com que o senhor sonhou?
BEN GURION - De certa forma, sim. Os sonhos sempre vão um pouco além da realidade, mas este é, mais ou menos, o país com que sonhei. Meu sonho começou antes de minha chegada à Terra Prometida. Contudo, foi somente quando cheguei aqui que pude realmente sonhar com Israel, e dar a esse sonho um conteúdo mais preciso, mais concreto. Meu pai já era sionista muito antes de Theodore Hertzl. Ele não se considerava sionista porque essa palavra ainda não existia. Era, como se costumava chamar na época, "um amante de Sion". Hertzl surgiu vinte anos mais tarde, e conseqüentemente em minha cidade nós todos nos tornamos "sionistas". Quando, porém, cheguei a Israel, eu me perguntei: "Se todos os judeus do mundo fossem como meu pai, sionistas fervorosos e cheios de zelo, será que isso mudaria muito as coisas por aqui? Será que seus discursos magníficos, o dinheiro que coletam, suas preces secarão os pântanos e fertilizarão os desertos?" Claro que não. Então deixei de ser sionista, no exato momento em que pus os pés em Israel.

VEJA Israel é a comunidade socialista que o senhor ajudou a construir em sua juventude?
BEN GURION - Quando Israel foi socialista? Sempre foi mais ou menos como agora. Havia grupos socialistas e a maioria da população tinha sentimentos socialistas. Mas a Yishouv, a comunidade judaica anterior à fundação de Israel, nunca foi, em época alguma, nem mais, nem menos socialista do que o Estado de Israel tem sido em seus 25 anos.

VEJA Qual a prioridade de Israel com vistas ao futuro?
BEN GURION - Em termos absolutos, a paz com seus vizinhos. Em termos relativos, uma grande corrente imigratória de judeus, e sobretudo imigrantes procedentes de países ocidentais. Já absorvemos quase a totalidade dos judeus afro-asiáticos. O judaísmo na União Soviética, onde 3 milhões de nossos irmãos sofrem a negação de toda liberdade de movimentos, nos envia um número reduzido mas crescente de imigrantes. Será que isso durará? Com o Kremlin, não se pode fazer previsões. Restam os judeus do mundo livre, da Europa Ocidental, dos Estados Unidos. Na maior parte eles não virão para Israel. Pelo menos num futuro previsível. Por que haveriam de trocar um país de elevado padrão de vida e grande conforto por outro relativamente muito mais pobre? Habitualmente, as migrações obedecem principalmente a uma motivação econômica... Mas há centenas de milhares de judeus ocidentais, principalmente jovens, que sentirão a necessidade incontida de vir juntar-se a nós, porque o mundo de abundância em que vivem não lhes oferece os atrativos de Israel: a construção de um mundo novo, uma civilização original e o reencontro com as origens judaicas.

VEJA - Acredita que uma nova onda de anti-semitismo poderá empurrar os judeus ocidentais para Israel?
BEN GURION - Talvez em alguns casos. Mas também haverá outras motivações. Em 1951, perguntei a Einstein: "Você acha que muitos cientistas judeus-americanos virão se juntar a nós?" Ele me respondeu que sim e eu perguntei por que pensava assim. Explicou: "Porque, por mais que façamos, não têm confiança em nós e continuamos sendo sempre considerados forasteiros". Isso foi durante a fase aguda do macarthismo nos Estados Unidos. Anos mais tarde, relatei a Jacob Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica, aquela conversa que tivera com Einstein. As coisas tinham mudado muito nos Estados Unidos. Cercavam de atenções os cientistas judeus chegados da Europa, dos quais tanto precisavam. "Você irá para Israel?", perguntei a Oppenheimer. "E, se for, por que irá?" Oppenheimer respondeu que iria. E, depois de uma longa pausa para reflexão, acrescentou: "Irei, com certeza, embora tenha aqui tudo que um homem de ciência possa desejar. Sou respeitado e honrado, não tenho problemas de ordem material e minha origem judaica não impede a amizade de meus colegas... Não será por anti-semitismo que partirei. É que hoje a vida não tem mais sentido nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do Ocidente. A espécie humana pode ser dividida em duas partes. A vasta maioria dos homens quer receber as coisas sem nada fazer, mas há uma minoria que tem uma necessidade interior intensa de dar, de criar. Somente assim a vida tem um significado. Para essas pessoas, o destino é Israel. Posso afirmá-lo porque cheguei a essa conclusão..."

VEJA Isso, quanto a Einstein e Oppenheimer... E quanto aos outros?
BEN GURION - Infelizmente, àquela altura, Oppenheimer já estava muito doente e morreria antes de realizar seus planos. Dois anos atrás, voltei aos Estados Unidos. Avistei-me com milhares de jovens judeus em Nova York e em outros lugares. Muitos falavam hebreu e preparavam-se para partir para Israel. Justificavam-se da mesma forma que Oppenheimer: queriam criar e dar aos seus e à humanidade toda; queriam transformar-se, transformando uma natureza ingrata, ajudando os necessitados; queriam ter um alvo a atingir.. . Tenho certeza de que os que pensam assim representarão talvez 1% dos judeus-americanos. É pouco, mas, com 60.000 jovens desse calibre chegando a cada ano a Israel, poderemos revolucionar nossa sociedade.

VEJA - Quantos judeus gostaria que se mudassem para Israel?
BEN GURION - Israel precisa ainda de mais 5 ou 6 milhões de judeus.

VEJA Por necessidade de segurança?
BEN GURION - De forma alguma. Já somos o bastante para velar pelo país. Precisamos de mais cérebros e braços para edificar uma nova civilização.

VEJA Que civilização?
BEN GURION - Aquela da definição de Isaías há 2.800 anos, que nunca foi tão atual: "Eu vos transformarei numa bênção para os povos e numa luz para as nações."

VEJA Seria o advento da era messiânica para o povo eleito?
BEN GURION - E por que não? Eu vejo o início dessa nova era. Posso parecer chauvinista, mas dentre os povos da Terra ainda é o judeu, com sua dramática experiência de história, o que me parece o mais apto a assumir o fardo dos novos tempos, quando for preciso encontrar soluções para problemas impossíveis, como a exaustão dos recursos naturais, a explosão demográfica, a poluição sob todas as formas...

VEJA - O senhor é agnóstico. O que o inspira? Uma forma científica do velho messianismo religioso?
BEN GURION - Pode definir assim. Nos tempos modernos, o povo judeu tem vocação científica. Quinze por cento dos americanos contemplados com Prêmio Nobel são judeus, embora representem 3% apenas da população dos Estados Unidos. Mas, entre os judeus, a ciência nunca foi separada da consciência, do respeito pela vida, das leis morais... Trata-se da ciência a serviço de um novo humanismo para os homens de amanhã. A história de Israel não começou em 1948. Essa é a razão pela qual eu gostaria de escrever para a juventude israelense atual. Ser livre, num país livre, pode parecer a essa juventude uma coisa natural. Mas é preciso compreender o passado para poder enfrentar o futuro. Compreender por que um punhado de homens realizou o impossível. Esses homens estavam possuídos por algo mais do que o simples desejo de encontrar um refúgio ao fugirem da Rússia. Poderiam ter ido para os Estados Unidos ou a Argentina. Mas não. Estavam tomados por uma visão. Esses jovens de hoje precisam compreender também que Israel ainda não existe verdadeiramente e que amanhã encontraremos tantas dificuldades quantas as que superamos no passado. É por isso que não digo que a guerra de 1967 foi uma vitória. Foi apenas a mais recente de nossas batalhas. Infelizmente, outras virão...

VEJA Não é terrível pensar que isso vai continuar para sempre?
BEN GURION - Temos alguma escolha? Um dia, nossos inimigos acabarão se convencendo de que precisam tanto da paz quanto nós. Mas, até que isso aconteça, precisamos nos defender. Somos um pequeno país e um pequeno povo, e continuaremos a viver perigosamente. Ninguém lutará por nós. A propósito, mantive conversações edificantes com dois presidentes, o general Eisenhower e o general De Gaulle. Eisenhower me disse: "Não tenha medo de nada. Não vamos deixar que destruam Israel". E eu lhe respondi: "Que fará o senhor? Enviará uma força expedicionária para nos socorrer? Será preciso autorização do Congresso, do Senado, do Pentágono... Antes que os navios americanos levantem ferros, nossas cidades já estarão em chamas. Além do mais, não quero que os jovens americanos morram por nós. Ajudem-nos, dêem-nos armas que nós saberemos nos defender sozinhos..." Tive a mesma discussão com De Gaulle. Ele me escreveu dizendo para não me preocupar com a concentração de forças egípcias no Sinai. "Se o pior acontecer, nós socorreremos Israel, não precisam ser tão obstinados", acrescentou. E eu respondi: "Não queremos que nos defenda. Um povo deve lutar sozinho, mesmo quando seus inimigos parecem mais fortes. É o teste de sua independência no mundo impiedoso de hoje em dia. Para isso, precisa ter um bom exército e alguns amigos no mundo. Nós estamos sós. Três milhões contra 100 milhões. Não pertencemos a nenhuma aliança militar. Não há outro Estado judeu no mundo, apenas uma comunidade judaica nos Estados Unidos, influente, sem dúvida, mas cujo poder não se deve exagerar. Os árabes são numerosos e contam com a solidariedade automática dos países muçulmanos e da maior parte dos países afro-asiáticos. Seu petróleo e seus trunfos geopolíticos lhes valem muitos amigos e clientes. Que pode oferecer o pequeno Israel? No entanto, com uma boa força armada, um povo unido e poderosamente motivado, e alguns amigos raros, sempre soubemos vencer". Em 1948, a Checoslováquia fornecia armas de que nossos aviões precisavam desesperadamente. Em 1956, foi a França. Atualmente são os Estados Unidos. Enquanto esperamos, avançamos a passos largos para a auto-suficiência na produção de armas. Teremos muito mais amigos quando não precisarmos deles. Pelo menos em matéria de armamento. Sabemos que, embora os governos defendam seus interesses de momento, a opinião pública de seus países está conosco. Os povos me criticam, mesmo aqueles que nos combatem. Encontrei De Gaulle depois da ruptura, nos funerais de Adenauer. Tivemos uma longa conversa, e ele continuou a me escrever até a sua morte. Posso afirmar que, ainda que ele acreditasse que por razões de política nacional deveria assumir uma posição contra Israel, nunca deixou de nos dedicar um respeito e uma admiração quase místicos. Daqui a alguns anos, talvez depois de minha morte, sejam publicadas nossa correspondência e as minutas de nossas conversações. Muita gente vai ficar surpresa...

VEJA - Israel está, então, condenado a uma guerra perpétua?
BEN GURION - Não creio. Talvez não tenhamos a paz neste ano, no ano que vem, daqui a dez ou vinte anos. Mas um dia ela chegará. Conheço os árabes e sua mentalidade. Antes da independência eu ia muito ao Egito e conversava longamente com seus líderes. Depois da proclamação do Estado de Israel nunca mais voltei ao Egito. Mas muitos dos antigos interlocutores me procuraram no exterior ou vieram ver-me em Israel, pelo menos durante os primeiros dez anos de independência. Sei o que se passa no Egito neste momento. O Egito permanece um país de camponeses muito pobres, que geram cada vez mais filhos e têm cada vez menos meios de alimentá-los. Tudo se degrada ante a pressão demográfica. Há cada vez menos terras e o nível de educação cai. A cada ano 120.000 jovens egípcios terminam seus estudos universitários no Egito, União Soviética, Europa ou Estados Unidos. São jovens que pensam apenas em conseguir um bom trabalho. Muitos se preocupam com o futuro de seu povo, com os felás, 60% dos quais sofrem de alguma doença crônica. Antes da morte, Nasser tinha reconhecido que havia se enganado, que o objetivo de toda a sua vida de líder, a destruição de Israel, era um erro e uma quimera, que era preciso, portanto, procurar melhorar a sorte de seu povo. Mas ele morreu e não sei o que Sadat vai fazer nem sei se poderá fazer alguma coisa. Mas as elites egípcias tomam consciência progressivamente das verdadeiras prioridades de seu país. Alguém acabará surgindo na cena política egípcia para salvar seu país do desastre, do subdesenvolvimento, da doença e da fome. Nesse dia, esse novo líder fará a paz conosco e precisará de nós. A paz com nossos vizinhos - essa é a última condição para que Israel seja um país de verdade.

VEJA O senhor continua mantendo a mesma opinião expressa em oportunidades anteriores sobre a questão territorial?
BEN GURION - É preciso compreender as vicissitudes históricas que determinaram as fronteiras de Israel. Elas foram traçadas pela guerra, desde a invasão das forças árabes que não reconheceram nossa independência em 1948. Nossas fronteiras ficaram sendo simples linhas de armistício, num convite permanente à agressão de nossos vizinhos. Contudo, pode-se considerar a devolução, em troca da paz, de todos os territórios ocupados desde a Guerra dos Seis Dias de 1967, com exceção de Jerusalém e das colinas de Golan. Mas, se não houver paz - como não houve até hoje -, deve ser estabelecido o maior número possível de centros judaicos de povoamento, de preferência na margem ocidental do rio Jordão, sem deslocar a população árabe. No fundo, tudo é paradoxo na história de Israel, tanto no que diz respeito aos judeus quanto aos árabes. Dizem que eu sou o patriarca de Israel. Isso não é verdade. Os verdadeiros fundadores de Israel são três cavalheiros anti-sionistas e que aparentemente não tinham nenhum projeto de natureza política ao chegarem no começo do século passado ao Oriente Médio.

VEJA - E quem eram eles?
BEN GURION - Eram dois franceses e um inglês, que fundaram a primeira escola de agronomia e estabeleceram o núcleo dos primeiros povoados. Outro fundador de Israel foi Edmond de Rothschild, igualmente anti-sionista. Poderia citar ainda outros. Também há um paradoxo no comportamento de nossos vizinhos árabes. Eles sempre disseram "não", recusando-se à mais leve forma de conciliação. Dizem não ao Estado bi-nacional quando alguns de nós o propõem; não a qualquer plano de partilha de terra, mesmo quando a parte que nos cabe é diminuta; não a tudo. Nós não agimos contra os árabes. Na verdade, reagimos contra algumas de suas incessantes agressões. Portanto, acho que se pode dizer que Israel não nasceu há apenas 25 anos, mas sim há mais de um século, graças a diversos não-sionistas e à persistência dos árabes em querer negar nosso direito de existir.

VEJA O que será preciso para que Israel se integre na comunidade das nações pacíficas do mundo?
BEN GURION - Primeiro, que todos os judeus do mundo venham para Israel; em segundo lugar, que os desertos que cobrem 80% da área do país sejam fertilizados; e, em terceiro lugar, a paz com os árabes. Somente depois de atendidas essas três condições, Israel terá nascido de verdade.





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