Artigos
Os judeus e o Brasil

 

Artigo Publicado no Jornal OTEMPO em 18/03/2011

 

RENATO SOMBERG PFEFFER

Professor (Ibmec-MG)

 

 

A oficialização do dia 18 de março para comemoração da imigração judaica para o Brasil não poderia ser mais significativa. A data escolhida tem como referência a reinauguração da sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel, em 2002. Construída em 1637, durante o período em que Recife era dominada pelos holandeses, foi a primeira em funcionamento nas terras do Novo Mundo. 

 

A presença holandesa no Brasil (1630-1654) foi marcada por uma ampla liberdade religiosa, que permitiu à comunidade judaica integrar-se à sociedade local. O breve período de liberdade religiosa foi interrompido, porém, pela reconquista portuguesa. 

 

O Brasil parecia ser mais um lugar de exílio provisório para esse povo. A história deste país e sua relação com o povo judeu, no entanto, se mostrou muito diferente.

 

A presença judaica no período colonial brasileiro, embora descontínua, encontra referências desde a expedição cabralina. Vitimados pela perseguição religiosa na península ibérica, muitos cristãos-novos aqui se estabeleceram. Em 1810, o Tratado de Comércio e Navegação opera uma ruptura com o passado colonial ao garantir a liberdade de culto. Imigrantes assumidamente judeus estabelecem-se, então, no Rio de Janeiro e na Amazônia. 

 

A consolidação das comunidades judaicas no Brasil, porém, só ocorre na república. Desse momento em diante, houve um aumento significativo da imigração judaica, dando origem aos atuais centros da vida comunitária. Nesse processo contemporâneo de integração à nova pátria, os imigrantes judeus praticamente não encontraram resistência por parte da população local. 

 

Tal abertura dos brasileiros a uma identidade tão diversa como a judaica deve ser explicada tendo como referência a história deste país. 

 

A colonização do Brasil por Portugal foi permeada por aspectos religiosos e mercantilistas. A metrópole tentou impor sua cultura aos nativos e aos africanos. O projeto metropolitano quase se concretizou; no entanto, as culturas dominadas persistiram através do hibridismo. Esse espírito mestiço, fruto da resistência à opressão, acabou forjando um povo capaz de se abrir a outras culturas. Talvez seja essa a grande contribuição brasileira para o mundo. 

 

O povo mestiço aprendeu a fundir códigos de uma maneira festiva. Foi essa cultura forjada ao longo de uma colonização opressiva que permitiu a integração dos judeus. Discriminados e perseguidos em seus países de origem, os judeus encontraram na nova pátria as oportunidades necessárias para o seu desenvolvimento e o do próprio Brasil. 

 

Tão importante quanto comemorar o dia da imigração judaica para o Brasil, é fundamental ressaltar a abertura dos brasileiros aos estrangeiros. Ao longo de sua formação, construiu-se no Brasil um Estado multicultural capaz de preservar um pluralismo cultural harmonioso. Nesse caldeirão que mistura, mas também permite as diferenças, o povo judeu deixou sua marca e também se deixou influenciar. 



Redes Sociais
Rua Rio Grande do Norte, nº477 – Funcionários - Belo Horizonte - MG | CEP: 30130-130
Telefone: (31) 3224-6673 | e-mail: fisemg@fisemg.com.br