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O holocausto: eclipse passageiro de Deus

 

“Por que, ó eterno, te manténs afastado? Tu te ocultas no dia da aflição? Em sua arrogância, o malvado persegue o pobre neste mundo.” (Salmo 10)

 

A Segunda Guerra Mundial, e especificamente o holocausto, pareceu confirmar a tese de um mundo sem sentido, regido por homens e sem a presença divina. Era como se Deus tivesse deixado as questões éticas nas mãos da humanidade, permitindo que essa exercesse sua vontade moral. O resultado foi um dos mais tristes capítulos da História. Martin Buber se referiu àquele momento histórico como “eclipse de Deus”.  Esse eclipse pode ser definido como um sentimento de angústia espiritual, de vacuidade, de falta de significação. Deus parecia algo improvável para quem vivenciou aquela experiência e mesmo para as gerações posteriores. Vários pensadores chegaram a decretar Sua morte.

 

A experiência dessa guerra, que talvez possa ser condensada na palavra Auschwitz, exigiu um reposicionamento do pensar ocidental, pois uma nova procura de sentido se fez necessária. Mais do que a derrota do pensamento iluminista que associava razão, progresso e felicidade, Auschwitz representou o fracasso de séculos de civilização.

 

Se é verdade que não faltam tragédias na história da humanidade, também é certo que nenhuma delas se assemelha ao holocausto. A diferença não está na quantidade de mortos. Milhões de pessoas também foram assassinadas na China de Mao ou na URSS de Stalin. O mal representado pelo holocausto, no entanto, é distinto por sua própria natureza. A intenção, a forma, a finalidade implicadas no assassinato de uma criança judia eram totalmente distintos de outros assassinatos perpetrados pelo homem ao longo de sua jornada.

 

As feridas não cicatrizadas em Auschwitz deveriam, ainda hoje, levar a repensarmos nossa relação Deus. O eclipse de Deus, ocorrido na Europa nazista, não significou, como muitos acreditaram, a morte de Deus. Como Buber afirma, um eclipse do Sol é algo que tem lugar entre o Sol e nossos olhos, não no Sol mesmo. Paradoxalmente, é exatamente a tribulação daquele momento histórico que pode permitir o renascimento da esperança, pois, quando se pensa que Deus não mais existe e que fomos relegados ao abandono, é que se faz possível a grande volta que Ele espera de nós. Isto é possível porque a qualquer momento pode desaparecer aquilo que se interpôs entre o criador e a sua criatura.


O homem reduzido a sua solidão não é capaz de fazer-se inteiramente homem. É somente na volta da relação dialógica com Deus que a vida humana encontra um sentido absoluto. O homem pode perceber, então, que mesmo em meio ao eclipse da luz divina, Ele segue conosco. Se conhecemos as trevas quando atravessamos a porta do medo, podemos conhecer a luz quando regressamos pela mesma porta graças ao amor de Deus.

 

Deus deseja que seu brilho penetre no mundo, mas, para isso, são necessários homens dispostos a acolher sua luz e sua força. Deus nunca se retira do mundo, é o homem que se fecha para Ele. E é justamente quando o homem fecha seus olhos a Deus que o mal penetra em sua vida. O que quer Deus de nós? Ele quer que nos religuemos a Ele na esfera concreta de nossa ação no mundo, combatendo o mal e buscando o bem, contribuindo, assim, para a redenção.

 

 

 

Renato Somberg Pfeffer

Doutor em Filosofia - Professor do Ibmec-MG e do CEFET-MG



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