Notícias
Discurso proferido por Claudio Lottenberg na cerimônia do "Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto"

 

 

Presidenta Dilma Rousseff com Claudio Lottenberg,
presidente da Confederação Israelita do Brasil,
durante a solenidade, ocorrida em Brasília
Foto: Peter Halmagyi

 

"A Organização das Nações Unidas, cujo objetivo declarado é facilitar a cooperação em matéria de direito e segurança internacional, desenvolvimento econômico e progresso social, e lutar pelos direitos humanos e para a paz mundial, decidiu entre seus pares incluir em seu calendário oficial o dia 27 de Janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Judeus e não judeus, em todas as partes do mundo e, sobretudo onde vigora a democracia no sentido real, estão homenageando aqueles que foram mortos pelo nazismo, praticando um exercício de reflexão sobre o ideário do respeito à diversidade, a necessidade do combate à intolerância e a desmistificação dos praticantes do negacionismo. O Brasil, neste sentido, é modelo de referência internacional. Aqui vivem pessoas das mais diferentes origens. Nos mesmos ambientes de trabalho, é fácil encontrar negros, brancos, japoneses, judeus, árabes, pessoas culturalmente muito diferentes e que mesmo nos momentos de disputa por um espaço, jamais observam ou praticam sinais discriminatórios em sua argumentação. A história judaica no Brasil remete à sua descoberta. As contribuições têm sido enormes e, quem sabe, por conta da própria Inquisição que acontecia na Europa, muitos dos brasileiros que aqui estão nem saibam que têm na sua origem o judaísmo. Poderíamos falar do período da presença da corte real em 1808, da contribuição na presença holandesa e, das recentes correntes imigratórias fruto das perseguições da Europa e mesmo dos judeus sefaradim, que para cá vieram nos anos 1950, expulsos dos países árabes quando o Estado de Israel foi criado. Hoje estamos homenageando a rigor aqueles que foram mortos pelo nazismo. Jamais, em nenhum momento, montou-se uma estratégia e uma máquina mortífera em escala industrial como se fez no Holocausto. Antes da barbárie nazista, os pesadelos mais pessimistas sobre os limites da indiferença e da crueldade não chegavam a contemplar aquilo que se viu nos campos de extermínio e nas câmaras de gás construídas pelo hitlerismo. Nomes infames como Auschwitz, Birkenau, Maidanek, Sobibor, Treblinka, entre outros, passaram à história como cicatrizes de um capítulo absolutamente nefasto da nossa história, o paroxismo na prática do genocídio e do assassinato em massa.

Entretanto, num sentido mais amplo devemos contextualizar este momento para um exercício que nos remeta a combater toda e qualquer forma de intolerância e discriminação. O dia do Holocausto na perspectiva do passado nos é muito duro, mas no ângulo do futuro nos será ainda mais, se nos mantivermos inertes quando negros continuarem a ser discriminados, bahais não puderem se expressar no ideário democrático, mulheres forem lateralizadas, quando não, objetos de sexismo. Não podemos admitir que ainda haja genocídios, perseguições sistemáticas e regime calcados no ódio e na perseguição a minorias étnicas ou religiosas e baseados na discriminação de gênero ou de orientação sexual, que infelizmente sobrevivem em pleno século XXI. Um dia como este só faz sentido se ele trouxer um compromisso maior pelo sentido do entendimento. Se o Brasil soube nos receber, e não só a nós, mas todos,cabe a ele e a nós como brasileiros, por nossa natureza pacifista estimular o entendimento , fazer com que as demais sociedades pactuem pela linguagem e pelo dialogo. Aqui não se trata de negar compromissos e, no caso do Estado judeu, garanto a todos que o desejo é de uma paz com seus semelhantes palestinos. Mas esta paz só poderá existir no momento em que este povo palestino, povo sofrido, saiba que também deverá respeitar um Estado soberano, livre e seguro que é o Estado de Israel. Quem sabe por isto é que tenhamos que insistir para que o debate aconteça e encontrar vias de entendimento que até o presente momento não tem sido o padrão apresentado dentro do radicalismo fundamentalista do Hamas e do Hezbola incentivados por regimes tiranos e negacionistas e em alguns momentos também por algumas lideranças de Israel.

Excelentíssima Presidenta Dilma Rousseff, amigos e amigas:
Gostaríamos também, nesta ocasião tão relevante e numa homenagem em data definida pelas Nações Unidas com apoio decisivo da diplomacia brasileira, falar em coragem. Primeiro, temos a honra de lembrar que em 2013,,serão marcados os setenta anos de um momento épico em meio à tentativa nazista de, antes de exterminar, esvaziar a dignidade das vítimas, transformá-las em meros arremedos de pessoas, sabotar e destruir sua condição humana. Era assim nos guetos que proliferavam na Europa. Comunidades judaicas inteiras confinadas em guetos, em condições degradantes, sem alimentação adequada, sem trabalho, sem assistência médica. O inferno do gueto precedia o inferno dos campos de extermínio. Mas era absolutamente incrível a resiliência daqueles nossos irmãos. No Gueto de Varsóvia, o maior na Segunda Guerra Mundial, os judeus conseguiram organizar escola, orquestra sinfônica, encontros culturais. A clandestinidade valia ouro. Contatos eram feitos com a resistência antinazista que lutava do lado de fora dos muros. Crianças se esgueiravam pelos esgotos fétidos para conseguir contrabandear, por exemplo, pão. Mas, chegaram também a trazer armas. Armas leves, o que era possível carregar por caminhos tão estreitos, tão sinuosos e perigosos. Muitos foram capturados pelos nazistas e abatidos na hora. Mas o heroísmo dessas crianças e jovens não foi em vão. Junto com outras fontes, a resistência judaica conseguiu, em 19 de abril de 1943, deslanchar o levante do Gueto de Varsóvia.

Do ponto de vista militar, um suicídio. Um grupo mal armado e mal treinado contra o mais poderoso exército daquele momento. Do ponto de vista humano, um grito de desespero. Um momento de admirável coragem. Liderados pelo jovem Mordechai Anielewicz, os combatentes judeus surpreenderam os nazistas. Estes algozes acreditavam piamente que haviam reduzido suas vitimas a uma condição subhumana, incapaz de engendrar qualquer tipo de resistência. Ledo engano. O levante do gueto de Varsóvia durou quase um mês. Além de prestar uma homenagem especial aos irmãos que tombaram na luta contra o nazismo e que foram vítimas desta barbárie sem precedentes, a Confederação israelita do Brasil, representante de nossa comunidade judaica, deseja mostrar sua eterna gratidão àqueles que demonstraram coragem ímpar, que os coloca na galeria dos heróis na luta pela dignidade humana. A Anjo de Hamburgo, Aracy Guimarães Rosa, arriscou-se em nome de sua crença na dignidade e nos direitos humanos. O embaixador Souza Dantas, um Justo entre as Nações, protagonizou também episódio de heroísmo comovente.

Em meu cotidiano, convivo com descendentes de judeus salvos por estes brasileiros. Aracy e Souza Dantas tiveram coragem. Coragem alimentada pela crença em valores. São exemplos para nós. Com a mesma coragem, vamos sempre defender a memória de nossos antepassados, das vítimas de perseguições e lutar por um mundo com mais democracia, mais respeito à diversidade e mais cultura de paz. Esse é o mundo que desejamos aos filhos de todos nós. A rigor, Senhora Presidente , estes personagens , no sentido estrito da lei cometeram abusos, agiram na ilegalidade. Entretanto, não fossem os subversivos condenados pela ditadura militar neste país, quem sabe a democracia que temos não existiria da forma como ela é. Guerrilheiros para alguns em uma época, podem no exercício da ilegalidade, mas na legitimidade, construir uma sociedade melhor. A senhora, presidenta, que com sua coragem participou da edificação deste Brasil democrático, sabe muito bem o quanto é difícil arbitrar pela legitimidade, na clandestinidade. A senhora lutou por todos nós e em nome de meus filhos eu agradeço a justa e legitima Dilma Roussef, a Dilma que lutou por nosso Brasil democrático. Amiga Dilma : Jamais vou esquecer o brilho de seus olhos quando a senhora, com elegância, com habilidade política, mas com firmeza que lhe é caracteristica, me defendeu e me estimulou a sempre expressar meus sentimentos e defender os interesses de minha comunidade. Tenho orgulho de chamá-la de amiga Dilma Roussef, a legitima Dilma que na legitimidade e não necessariamente na legalidade da época, lutou contra a ditadura, a presidenta deste Brasil democrático.

Minhas senhoras e meus senhores:
A comunidade judaica é uma comunidade trabalhadora. Somos apartidários. Acreditamos que podemos colaborar e sempre fazer pelo Estado Brasileiro. Recém chegava ao Brasil, neste domingo e soube pelo ministro, Alexandre Padilha, com tristeza, do ocorrido em Santa Maria. Despachamos de imediato, em nome de nossa comunidade, medicamentos e insumos e preparamos um grupo formado por médicos intensivistas e enfermeiros que estão lá trabalhando. Durante estes dois anos, senhora Presidenta, sempre disse que estaria disposto a participar de qualquer iniciativa com o seu governo e com a sua pessoa, e o ministro Padilha sabe que fazemos muito, mas aquele algo pessoal infelizmente foi acontecer justamente em um estado que lhe é tão próximo, Rio Grande do Sul e em circunstancias tão catastróficas que lembraram a chacina do Holocausto. Era 27 de janeiro, o "Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto". Para nós, mais uma missão, nós que estivemos em Itinga com o presidente Lula, nós que fomos os primeiros a chegar ao Haiti em nome da nação brasileira. Tinhamos estado nas enchentes de Santa Catarina e somos a referencia mundial de transplante hepático num sistema universalizante que é o SUS. Esta não é uma missão de legalidade. Esta é uma missão de legitimidade. A legitimidade da Aracy. A legitimidade do Souza Dantas. A legitimidade da Dilma. Duro recordar momentos como este. Mas para se fazer melhor, um dos caminhos é nunca esquecer".

Fonte:http://alefnews.jornalalef.com.br/ver_mensagem.php?id=H|1859|127597|135967021096302600



Redes Sociais
Rua Rio Grande do Norte, nº477 – Funcionários - Belo Horizonte - MG | CEP: 30130-130
Telefone: (31) 3224-6673 | e-mail: fisemg@fisemg.com.br