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Entrevista com Embaixador de Israel no Brasil no Correio Braziliense – 31/12/2011

 

"O Hamas busca a paz do cemitério"

 

Embaixador de Israel vê a divisão palestina e a ideologia do grupo islâmico como obstáculos ao diálogo e classifica o Irã de "terrorista"
 

» RODRIGO CRAVEIRO

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Shalom ("paz", em hebraico). É tudo o que deseja Rafael Eldad, embaixador de Israel em Brasília, para 2012. Ele sabe que palestinos e israelenses têm assuntos muito difíceis para resolver. Mas, para os dois povos chegarem a uma convivência pacífica, o diplomata lembra que é preciso disposição para o diálogo. "Temos que voltar todos à mesa de negociação com boa vontade, com flexibilidade e com abertura para falar de um acordo de paz", afirma o marroquino de 62 anos, que migrou para Israel aos 13 anos.

Segundo ele, a divisão palestina e a recusa do movimento fundamentalista islâmico Hamas em reconhecer o Estado hebraico são os principais obstáculos para que uma negociação sólida ponha fim ao conflito no Oriente Médio. "Precisamos saber com quem estaremos fazendo a paz", explica o embaixador. "O Hamas busca a paz do cemitério, mas não a paz da convivência", acrescenta, em entrevista exclusiva ao Correio.

O diplomata sugere que os palestinos se unam sob uma autoridade pacífica e aberta ao entendimento com Israel. Bacharel em ciência política e história pela Universidade de Haifa, Rafael atuava como ministro-conselheiro da Embaixada de Israel em Buenos Aires, quando duas explosões mataram 114 pessoas na representação diplomática, em 1992, e na Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), dois anos depois. Ele acusa o Irã de envolvimento nos atentados e afirma: "Sabemos do que é capaz este regime e quão terrorista ele é".

Em entrevista publicada na semana passada, o embaixador iraniano, Mohsen Shaterzadeh Yazdi, garantiu que a Primavera Árabe não deixará espaço para Israel no Oriente Médio e alertou que o Estado hebraico será destruído, caso ataque a nação islâmica. O representante do governo israelense no Brasil rebate: "Que bonito é o discurso desse embaixador! Que grande diplomata! Que maneira bonita de falar, com ameaças, insultos". Eldad culpou os islamistas por terem associado o terrorismo ao islã, criticou o programa nuclear iraniano e admitiu que o levante nos países árabes tem favorecido regimes fundamentalistas. "Para Israel, o interesse, o ideal é ter vizinhos democráticos", concluiu.

 

 

Entrevista Rafael Eldad

 

Como o senhor analisa o programa nuclear iraniano?
É uma razão muito grande de preocupação para Israel, por uma questão muito simples. O presidente do Irã (Mahmud Ahmadinejad) constante, clara e abertamente ameaça a existência de Israel. Ao mesmo tempo, ele desenvolve um programa nuclear que não somente Israel, mas a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) suspeita que tem fins bélicos. Não se trata de uma preocupação apenas de Israel, mas de todo o Oriente Médio. A mesma preocupação têm países como a Arábia Saudita, o Egito, o Kuweit e outras nações na Europa e no mundo. Pensar que um regime tão fanático, tão fundamentalista, tão extremista, tão violento — como é o iraniano — pode ter em suas mãos armas nucleares é uma ideia que tira o sono das pessoas. Esperamos que o mundo inteiro, em um esforço combinado e coordenado, evite que armas nucleares caiam nas mãos de um regime como o Irã.

 

Israel considera uma ação militar unilateral contra instalações nucleares iranianas?

Israel não necessita de mais conflitos. Temos, lamentavelmente, muitos conflitos. Israel ainda não pode viver em paz e em tranquilidade, como qualquer país. Israel é o único país do mundo ameaçado em sua própria existência. Por isso, não queremos e não necessitamos de um novo conflito. Esperamos que o mundo tome consciência, cada vez mais, da gravidade e do perigo do programa nuclear iraniano.

 

O embaixador do Irã me disse que há 150 mil mísseis prontos para destruir o Estado hebraico, caso um ataque ocorra...
Não é surpresa, mais uma vez escutar, um iraniano que ameaça Israel com mísseis. O que o embaixador iraniano faz é repetir o que seu presidente diz. E isso mostra a agressividade deste regime e o perigo que ele representa. Um diplomata que fala dessa maneira, sobre usar milhares de mísseis contra outro país, mostra que o Irã não é um país muito pacífico. Por isso, eu repito: o Irã, nas mãos desses fundamentalistas, é muito perigoso. Espero que o mundo tome consciência disso e que os mesmos iranianos compreendam que não é bom para eles estarem em uma situação constante de ameaça e de agressão ao mundo. Eu posso falar um pouco de minha experiência. Servi como diplomata em Buenos Aires, durante as explosões na Embaixada de Israel (em 1992) e da Amia (Associação Mutual Israelita Argentina, em 1994). O Irã desempenhou um papel fundamental nesses dois atentados terroristas. Sabemos, pessoalmente, do que é capaz este regime e quão terrorista ele é.

 

 

 

 

Os iranianos insistem que o programa nuclear é motivo de orgulho nacional e descartam a militarização do mesmo...
A AIEA, um órgão mundialmente respeitado, afirma que há suspeitas muito fortes de que o Irã estaria desenvolvendo um programa bélico nuclear. A comunidade internacional não confia no Irã. Pensamos que eles estão tratando de ganhar tempo, até que o tema nuclear chegue a um ponto irreversível. E isso pode ser muito grave para o Oriente Médio e para o mundo inteiro.

 

A Primavera Árabe tem transformado o Oriente Médio. Como Israel pode se ver afetado por esse movimento?
Para Israel, o melhor é ter vizinhos democráticos. Se tivermos vizinhos democráticos, se Israel deixar de ser a única democracia do Oriente Médio, será ideal. Países democráticos não são agressivos. Países democráticos atuam de uma maneira mais tolerante, mais aberta e mais pacífica. Então, é interesse fundamental de Israel ter vizinhos democráticos. Por um momento, vimos um fenômeno muito interessante. Em cada país árabe que sediou eleições, sempre ganharam os fundamentalistas, os islamistas. Agora, dizem que são moderados. Não sei se amanhã o serão. Esse momento é de transição. Ainda não sabemos o que ocorrerá. Se a Primavera Árabe termina com países mais democráticos e mais livres, vai ser muito bom para o Oriente Médio e para Israel. Mas se eles trocarem uma ditadura de (Muamar) Kadafi (na Líbia) ou de (Bashar) Al-Assad (na Síria) por uma ditadura fundamentalista e islamista, não sei se será bom para eles e para o Oriente Médio.

 

 

Israel teme essa "islamização"? O embaixador do Irã acredita que não haverá mais espaço no Oriente Médio para o Estado hebraico...
Que bonito é o discurso desse embaixador! Que grande diplomata! Que maneira bonita de falar, com ameaças, insultos... Bom, não vamos participar disso... Lamento muito que, muitas vezes, o terrorismo se converteu em sinônimo de islamismo. E por culpa de quem? Dos mesmos islamistas. Eles atuam com terrorismo e com violência... Lamentavelmente, durante muitos anos eles acostumaram o mundo a ver o islamismo como terrorismo. O medo é que, se os países árabes caírem nas mãos de regimes islamistas fundamentalistas, poderão se tornar rapidamente violentos. Para Israel, o interesse, o ideal é ter vizinhos democráticos, que vivam em liberdade, tolerância, abertura e prosperidade.

 

O processo de paz no Oriente Médio se estagnou. Especialistas admitem que um dos principais obstáculos para a retomada do diálogo é o fato de que Israel coloniza a terra palestina. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
O processo de paz, a negociação, é uma coisa. Os termos de um acordo de paz são outra coisa. Primeiro, temos que voltar todos à mesa de negociação com boa vontade, com flexibilidade e com abertura para falar de um acordo de paz. Isso não quer dizer que será fácil. Temos que decidir sobre Jerusalém, as fronteiras, as medidas de segurança, os assuntos de água, a questão dos assentamentos, os refugiados. São muitos temas difíceis. Mas, primeiro, temos que chegar à mesa. Os palestinos afirmam que não irão à mesa de negociação, porque impõem condições prévias a Israel. Se chegarmos a um acordo sobre a mudança da fronteira e tivermos que deslocar um assentamento israelense para o outro lado, nós o faremos. Isso ocorreu no Egito, em Gaza e em muitas outras ocasiões. Temos que chegar à mesa de negociação. Israel tem essa vontade. Depois, vamos discutir. Acho que, com boa vontade, vamos sair com um acordo de paz.

 

Quais as principais dificuldades para que isso ocorra?
Um dos obstáculos maiores é que os palestinos estão divididos. Com quem Israel fará a paz? Se chegarmos hoje a um acordo de paz com Abu Mazen (Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestina), isso será suficiente? Ele será reconhecido pelo Hamas e válido para Gaza? Não sabemos. Achamos que não. É um problema fundamental. Primeiro, precisamos saber com quem estaremos fazendo a paz. O segundo obstáculo está no fato de que os palestinos ainda não estão dispostos a reconhecer a existência do Estado de Israel. O Irã, o Hezbollah, o Hamas e tantos outros não aceitam o direito de Israel existir. Muitos dos palestinos não estão dispostos a reconhecer a existência de Israel.

 

O Hamas e o Fatah buscam uma unidade palestina. Qual seria o impacto disso no processo de paz?
Se Abu Mazen está buscando a unidade com o Hamas, mantendo o que o Hamas diz — de não reconhecer Israel —, não sei se é algo bom para os palestinos. Seguramente, isso não é bom para o processo de paz. Como podemos fazer a paz com alguém que não está disposto a reconhecer nossa existência? É um pouco absurdo, não? O Hamas busca o desaparecimento de Israel, e não a paz com Israel. O Hamas busca a paz do cemitério, mas não a paz da convivência. Os palestinos têm que se unir sob uma autoridade pacífica, uma autoridade que busque o entendimento com o Estado de Israel. A ideologia do Hamas é somente violência, terrorismo e guerra.

 

Havia a expectativa de que o Estado palestino fosse declarado em 2011. Por que não ocorreu?
Temos que perguntar o porquê aos palestinos. Israel estava disposto a negociar e a chegar a um acordo de paz. E eles podiam ter um Estado reconhecido, inclusive, por Israel, que não se opõe à criação de um Estado palestino. Mas Israel quer que, primeiro, cheguemos a um acordo de paz. Se eles ainda não têm um Estado soberano e reconhecido por Israel, é porque não estão dispostos a sentar à mesa. Agora, eles buscam ter reconhecimento de um Estado, sem falar com Israel. Que Estado será este? Outro Estado como o Irã, terrorista, que o Hamas irá dominar e dirigir?

 

O que os palestinos precisam fazer para que Israel levante o bloqueio à Faixa de Gaza?
Algo muito fácil. Hamas tem que parar de atacar Israel. Se não existir o perigo de lançarem foguetes e mísseis contra Israel, isso terminará. Israel tem o controle sobre o que se passa em Gaza por uma única razão: a segurança dos israelenses. Se não tivermos esse controle, em uma semana Gaza se converterá em um arsenal de explosivos, bombas e mísseis. Eles não estão buscando desenvolver um sistema educacional ou de saúde. Não buscam construir hotéis ou casas. Não... Estão buscando levar a Gaza mais e mais explosivos e bombas.

 

Como o senhor analisa a relação entre Brasil e Israel?
Israel e Brasil têm uma relação boa, com cada vez mais conteúdo. O presidente Lula esteve em Israel. Temos uma negociação comercial cada vez mais importante. Temos intercâmbio cultural. Precisamos reconhecer que temos algumas diferenças. Não vemos as coisas exatamente da mesma maneira. Como o assunto do reconhecimento da criação do Estado palestino nesse momento. Pensamos que é prematuro e que os palestinos estão fazendo isso de modo unilateral. Mas são diferenças entre amigos. As relações são muito boas. Esperamos terminar o ano com um comércio mútuo de US$ 1,3 bilhão, com uma vantagem de Israel. A ideia é que o Brasil possa vender muito mais em Israel. Os israelenses têm cada vez mais consciência do Brasil e de sua importância.

 

 

 

Fonte:

Correio Braziliense – 31/12/2011

Entrevista com Rafael Eldad

 

 



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